Novos tempos, novos formatos de contratação

Que a pandemia — ou, mais especificamente, o isolamento social — chegou para impactar profundamente a forma como pessoas e empresas trabalham não é um tema novo, e já foi bastante discutido e analisado.

O que talvez não tenha sido tão percebido foram outras mudanças em andamento que, da mesma forma, têm modificado substancialmente a maneira de fazer negócios e o relacionamento entre clientes e fornecedores.

Como não poderia deixar de ser, a área de pesquisa de opinião pública e de mercado não passou incólume a esses efeitos. Mas, diferentemente do que se imaginava no início desse período de calamidade pública, boa parte das mudanças tem se mostrado positiva. Mais do que isso: essas modificações têm trazido benefícios para ambas as partes — clientes e fornecedores —, otimizando a aplicação de recursos financeiros e trazendo muito mais agilidade às pesquisas.

O curioso é que, a rigor, a tecnologia e a infraestrutura para essas mudanças já existiam, e eram acessíveis a todos. Só ganharam espaço, de fato, a partir das contingências deste novo momento.

Não estou me referindo apenas ao crescimento da substituição das entrevistas presenciais pela web, ou dos grupos focais que migraram para o formato online — mas sim a outras práticas que vêm se firmando no nosso mercado.

A Prova de Conceito

Um exemplo muito relevante é a prova de conceito exigida em uma licitação recente: um teste para que o contratante pudesse verificar, na prática, a capacidade do fornecedor de prestar determinado tipo de serviço.

Nesse caso, a prova consistia em realizar entre 100 e 150 entrevistas telefônicas em um período de 5 horas, com uma equipe de 4 ou 5 entrevistadores, a partir de uma listagem fornecida pela contratante no dia do teste. O questionário empregado era simples, com no máximo 10 perguntas fechadas, e foi entregue com um dia de antecedência para que o fornecedor pudesse programá-lo adequadamente.

Para assegurar a qualidade esperada, o sistema de telefonia utilizado precisava permitir que as entrevistas fossem acompanhadas ao vivo durante a aplicação do questionário, além da própria gravação da interação. A prova de conceito também exigia que, em até 48 horas, fosse disponibilizado à contratante um dashboard com os principais resultados — simulando, de forma quase completa, as diferentes etapas de uma pesquisa quantitativa.

Trata-se de um avanço importante: é uma solução simples, de fácil implementação, aplicada somente após a seleção inicial dos potenciais fornecedores por preço — ou seja, sem afetar os critérios habitualmente praticados em licitações públicas — e que, ao mesmo tempo, agrega um critério técnico capaz de garantir um mínimo de segurança à contratação.

A Live de Briefing

Outra iniciativa interessante, vivenciada recentemente, foi a realização de uma live entre uma contratante de pesquisa e seus possíveis fornecedores, centrada na discussão de um briefing abrangente que envolvia diferentes metodologias e técnicas.

O objetivo era avaliar diferentes aspectos do documento — entendimento, exequibilidade, avaliação das condições exigidas, entre outros pontos — de modo a assegurar o êxito da contratação. Nesse caso em particular, o conteúdo do briefing foi tornado público via web, e a contratante também fez contato prévio com diferentes fornecedores já conhecidos, para verificar o interesse em participar da live e garantir a presença de um número mínimo de empresas no evento.

As vantagens para a contratante foram diversas: conhecer de antemão o nível de interesse despertado, saber previamente o tipo e o porte de fornecedor com que poderia contar, e assim fazer eventuais correções de rumo, se necessário. Além disso, a reunião serviu para esclarecer dúvidas, o que possibilitou uma melhor redação do briefing e evitou surpresas desagradáveis — desde pontos técnicos até possíveis contestações que poderiam atrasar ainda mais o processo.

A apresentação de sugestões sobre os melhores formatos, técnicas e até públicos-alvo foi outro ganho para a contratante, gerando novos ajustes no briefing ou simplesmente confirmando que o processo estava na rota correta. O fato de a live ser pública e aberta a todos os potenciais fornecedores da concorrência assegurou transparência ao processo e, de certa forma, protegeu a contratante contra eventuais críticas — até pela oportunidade concedida à manifestação dos interessados.

Reuniões Virtuais e Contato Mais Ágil

Outra mudança positiva que temos observado no dia a dia é uma maior disposição para reuniões de acompanhamento e esclarecimento dos projetos de pesquisa.

O que antes envolvia certa complexidade — compatibilizar agendas entre fornecedor e contratante, viagens, inúmeras reuniões de ambos os lados, tempo de deslocamento — parece ter ganhado uma enorme simplificação. A possibilidade de trocar consultas rápidas pelo WhatsApp, agendar reuniões virtuais em diversas plataformas para daqui a uma ou duas horas, manter contato visual e virtual quase a qualquer momento, e esclarecer dúvidas assim que surgem, de certa forma aproximou as relações. Isso agregou mais objetividade, mais produtividade e mais dinamismo entre as partes, contribuindo bastante para a realização e a entrega de pesquisas mais ágeis e rápidas.

A Apresentação de Resultados no Formato Virtual

Ainda que, num primeiro momento, as reuniões virtuais para apresentação de resultados tenham incomodado — pela dificuldade em observar as reações das pessoas, sentir a receptividade às informações, e pela simples falta de hábito —, o fato é que vieram para ficar.

Passada essa fase de estranhamento, as vantagens se tornaram mais perceptíveis: além de mais práticas e mais baratas, esse formato oferece outros benefícios para a contratante que não podem ser ignorados.

Um deles é a possibilidade de conseguir mais atenção do público, já que não existem outros elementos disputando essa atenção na reunião virtual — como outras pessoas na sala, no modelo presencial, ou conversas paralelas. O chat para perguntas também organiza melhor o processo: torna os questionamentos mais objetivos (por precisarem ser escritos) e, ao mesmo tempo, engaja e aprofunda a discussão, já que ficam visíveis a todos.

Mas o ponto mais interessante da apresentação de resultados no formato virtual é a possibilidade de gravação — algo que já era tecnicamente possível no passado, mas raramente realizado, simplesmente porque não era prático. Hoje, com um clique, o arquivo da apresentação e dos resultados fica disponível a todos, o que ainda permite reproduzir a gravação para outras audiências da própria contratante, sem qualquer custo adicional.


Ricardo Luiz Checchia
Engenheiro, sócio da Checon Pesquisa. Membro da ESOMAR e conselheiro da ABEP – Associação Brasileira das Empresas de Pesquisa.